terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Mercado emergente mobile


Estava tentando arrumar tempo para ler uma reportagem especial que saiu na "The Economist" sobre o mundo mobile, intitulada The power of mobile money - A special report on telecoms in emerging markets. Como no ano novo, é impressionante como estamos comprometidos a fazer as coisas, reservei um tempo para ler. E que bom! Muita coisa interessante e muitas das previsões que se fizeram sobre as tendências para o mobile já até existem e em lugares que nem imaginaríamos que existisse!

Como a reportagem tem vinte páginas, vou trazer exemplos em uma seqüência de posts, para não ficar cansativo e conseguir trazer os exemplos. Neste post, falo sobre um mercado diferente do que conhecemos para o mundo mobile. Este mercado emergente que tem se desenvolvido nos países em desenvolvimento, principalmente na África, China e Índia são exemplificados através deste caso da Mary Wokhwale, de Uganda:

"Thanks to a microfinance loan, she was able to buy a basic handset and a roof-mounted antenna to ensure a reliable signal. She went into business selling phone calls to other villages, making a small profit on each call. This enable her to pay back her loan and buy a second phone. The income from selling phone calls subsequently enabled her to set up a business selling beer, open a music and video shop and help members of her family pay their children’s school fees. Business has dropped off somewhat in the past couple of years as mobile phones have fallen in price and many people in her village can afford their own. But Ms Wokhwale’s life has been transformed".

É devido a rápida expansão (adotada em função da criação de sistemas alternativas de acesso ao serviço de telefonia móvel) e de exemplos como este que, Jeffrey Sachs, guru de desenvolvimento do Instituto Earth da Universidade de Columbia, acredita que o celular seja “the single most transformative tool for development”.

A reportagem aponta algumas razões para esta transformação social e econômica introduzida a partir dos celulares: a propagação dos celulares nos países em desenvolvimento foi acompanhada do aumento de operadores de celular caseiros, fomentando o surgimento de um novo mercado com o qual as grandes companhias não se preocupavam, já que atendia a uma parcela da população com pouco dinheiro para investir na comunicação móvel; a oferta de telefones mais baratos; a oferta de serviços além da comunicação por voz e SMS, como o sistema de celulares pré-pagos, que ajudou, inclusive, na expansão do celular entre adolescentes na Europa.

O sistema pré-pago foi fundamental para o continente africano, como explica Themba Khumalo da MTN (empresa de telefonia que atua na África do Sul e em outros países africanos): “Mobile phones could not work in Africa without prepaid because it´s a cash society”. O preço dos aparelhos também foi muito importante para a popularização. De acordo com os dados apresentados na reportagem, em 1990 um telefone celular custava US$250, hoje os aparelhos custam US$20. A queda de preço é justificada pelo ganho em escala nos países em desenvolvimento.

Outro importante fator para o uso massivo foi a liberalização do mercado de telecom e a emissão de licença para operadoras rivais. Atualmente, somente o governo da Etiópia que possui o sistema de telecom monopolizado pelo governo. O impacto é tamanho que a teledensidade (quantidade de telefones celulares por cada grupo de 100 pessoas), até o final de 2008, era de 3,5%. Na África, esse número chega a 40% e na Somália, país que em guerra civil, chega a 7,9%.

É interessante como a discussão e os próprios argumentos da evolução negócio que são apresentados na reportagem das empresas de telecom destes países nos soa familiar, já que foram as mesmas coisas ditas aqui, quando o celular dava seus primeiros passos neste continente. "Mobile phones make micro-entrepreneurs vastly more productive: a plumber no longer has to return to his shop to pick up messages from clients, for example". Não te soa familiar?

Por mais que sejam exemplos de início de aplicação do mobile, este trazido por pesquisa do prof. de Harvard Robert Jensen, ilustra muito bem como, na prática, o celular influencia diretamente no ROI: the access to a cell phone "eliminated waste, dramatically reduced the variation in prices (...), brought down consumer prices by 4% and increased (...) profits by 8%".

Outro ponto que destaco na reportagem é o seguinte: "once poor countries have established comprenhensive mobile converage, and a reasonable proportion of the populations owns a handset, they have a platform from which new services, such as farming device and mobile money, can be launched". E, no decorrer da reportagem, fica claro que o próximo desafio para tornar o celular uma ferramenta ainda mais “poderosa” é prover acesso a internet à todos os usuários.

Tem mais exemplos de como este mercado emergente mobile tem impacto no desenvolvimento econômico e o uso do celular como fim político e social, com alguns exemplos de serviços, que vou trazer em dois posts aqui no blog. O interessante deste mercado emergente que descrevi é um tipo de serviço que eu desconhecia e que tem sido responsável pela “democratização” (se é que eu posso utilizar esse termo aqui) da tecnologia, gerando renda e possibilitando uma qualidade de vida melhor às pessoas.

0 comentários:

Postar um comentário